Como funciona a mente de quem faz negócios

Como funciona a mente de quem faz negócios.

Como funciona o criador de negóciosO filósofo milanês Carlo Cattaneo tentava, no século XIX, entender por que algumas regiões cheias de comerciantes prosperavam mesmo sem haver nenhum aumento aparente no número de trabalhadores, na terra disponível ou no dinheiro para investimentos, elementos que ele chamava de “física da riqueza”. Aquele algo a mais, intangível e fundamental, Cattaneo chamou de “inteligência da riqueza”. No século XX, o economista britânico John Maynard Keynes, um dos mais influentes da história, concluiu que esse algo a mais não é exatamente uma inteligência, e sim um impulso difuso.
Keynes denominou essa vontade – criar negócios mesmo correndo riscos – de “espírito animal”. Uma sociedade não consegue criar ou controlar esse impulso, apenas incentivá-lo, a fim de enriquecer ou escapar de uma crise. Faz 150 anos que Cattaneo pensou na inteligência da riqueza, e só agora começamos a ter pistas sobre o que ocorre na cabeça do empreendedor. Por que alguns de nós, diante das duas opções, preferem não ter um emprego? E, em vez disso, criar um negócio próprio, assumir mais riscos e apostar numa ideia?

Algumas sociedades parecem especialmente bem-dotadas nesse quesito. O Brasil está entre elas. Segundo o levantamento Global Entrepreneurship Monitor 2011 são empreendedores por oportunidade 10% dos brasileiros. O Brasil está na 12a posição entre 54 países. Hoje, os estudiosos do fenômeno se dividem em duas frentes principais: a psicologia e a neurologia. A maioria admite haver causas variadas, biológicas e culturais, para que se forme um desses cérebros inquietos.

O psicólogo e consultor em formação Luiz Fernando Garcia identifica, na formação da personalidade empreendedora, efeitos muito fortes do meio e também o que parece ser um componente genético. “Temos genes associados a certas habilidades mentais que parecem interferir especialmente na personalidade do empreendedor”, afirma Garcia, autor do livro recém-lançado Empresários no divã e instrutor no programa Empretec, do Sebrae, de desenvolvimento do comportamento empreendedor. Estudos diversos vêm amparando essa compreensão.

No início de setembro, pesquisadores de administração e economia das universidades Harvard e Estocolmo comprovaram a relevância de um gene de regulação de hormônios (o AVPR1) na formação do cérebro empreendedor. Ele influi em como enfrentamos riscos. A neurocientista Angela Stanton, pesquisadora associada ao Instituto Max Planck, na Alemanha, acredita numa forte relação entre os níveis de hormônios, como esteroides e cortisona, e o impulso de abrir um negócio próprio. Ela tenta entender por que alguns de nós lidam mais facilmente com situações ambíguas, desafios e ameaças.

Angela tende a crer que empreendedorismo é uma característica inata, impossível de ensinar. Hal Gregersen, professor na escola de negócios francesa Insead e coautor do livro DNA do inovador, diz que a combinação perfeita mistura predisposição genética com um ambiente de questionamento, observação, relacionamento e experimentação. “Acredito que Steve Jobs tinha essa herança genética e, desde muito jovem, contou com pessoas próximas que o empurraram para um caminho criativo”, afirma. Essas várias frentes de pesquisa também chegam a algumas definições comuns sobre as características do empreendedor. Eles tendem a ser visionários, questionadores, experimentadores, arrojados e criativos – e cada uma delas, em dose exagerada, pode resultar em problemas.

Fonte: revistaepoca.globo.com